Menopausa e saúde do coração: por que o risco aumenta nessa fase?
- Dr Ênio Usiglio Panetti | CRM 5256781-1

- 14 de jun.
- 10 min de leitura

A menopausa e o climatério são fases naturais da vida da mulher, mas não devem ser vistos apenas como períodos de ondas de calor, irregularidade menstrual, alteração do sono ou mudanças de humor. Esse momento também marca uma transição importante para a saúde cardiovascular. Em muitas mulheres, é justamente nessa fase que começam a aparecer ou se intensificar fatores de risco como aumento do colesterol, ganho de gordura abdominal, elevação da pressão arterial, resistência à insulina e maior tendência à inflamação.
Durante muitos anos, a preocupação cardiovascular foi muito centrada nos homens. O infarto, por exemplo, era frequentemente visto como uma doença predominantemente masculina. Hoje sabemos que isso não é verdade. As doenças cardiovasculares também são uma das principais causas de adoecimento e morte entre as mulheres. A diferença é que, antes da menopausa, muitas mulheres parecem ter uma certa proteção biológica relacionada aos hormônios femininos, especialmente o estrogênio. Com a queda desses hormônios, essa proteção diminui, e o risco cardiovascular pode se acelerar.
Por isso, a transição menopáusica é considerada um período estratégico para prevenção. Não significa que toda mulher na menopausa terá doença cardíaca. Significa que esse é um momento em que vale a pena olhar com mais atenção para pressão arterial, colesterol, glicose, peso, circunferência abdominal, atividade física, sono, alimentação e histórico familiar.
O que são climatério e menopausa?
Antes de entender os efeitos cardiovasculares, é importante diferenciar climatério e menopausa. O climatério é o período de transição entre a fase reprodutiva e a fase não reprodutiva da mulher. Ele pode começar anos antes da última menstruação e se estender por um período depois dela. Durante o climatério, os níveis hormonais oscilam, os ciclos menstruais podem ficar irregulares e sintomas como calorões, sudorese noturna, alterações do sono e mudanças de humor podem surgir.
A menopausa, tecnicamente, é definida depois de 12 meses consecutivos sem menstruar, sem outra causa que explique essa ausência de menstruação. Em geral, ocorre por volta dos 45 aos 55 anos, mas pode acontecer antes. Quando ocorre antes dos 40 anos, é chamada de menopausa prematura. Quando acontece entre 40 e 44 anos, costuma ser classificada como menopausa precoce.
Essa idade importa porque quanto mais cedo a mulher perde a função ovariana, maior pode ser o impacto sobre sua saúde cardiovascular ao longo da vida. A menopausa prematura e a menopausa precoce estão associadas a maior risco de doença cardiovascular, especialmente quando outros fatores de risco também estão presentes.\
Por que a menopausa afeta o coração?
O estrogênio exerce várias ações benéficas no sistema cardiovascular. Ele participa da regulação da função dos vasos sanguíneos, ajuda na produção de óxido nítrico, substância que favorece a dilatação das artérias, influencia o metabolismo das gorduras, modula a resposta inflamatória e interfere na distribuição de gordura corporal.
Com a queda do estrogênio, o organismo feminino passa por mudanças importantes. Os vasos podem ficar menos capazes de relaxar adequadamente, a pressão arterial pode se tornar mais difícil de controlar, a rigidez arterial pode aumentar e o perfil do colesterol pode piorar. Além disso, há maior tendência ao acúmulo de gordura visceral, aquela gordura localizada mais profundamente na região abdominal, associada a resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão e inflamação.
Em outras palavras, a menopausa não é apenas uma mudança ginecológica. Ela tem reflexos metabólicos, vasculares e cardiovasculares.
Menopausa aumenta o colesterol?
Sim, a menopausa pode estar associada a piora do perfil lipídico. Muitas mulheres observam aumento do colesterol total, do LDL-colesterol e da apolipoproteína B durante a transição menopáusica. O LDL é conhecido popularmente como “colesterol ruim”, mas, do ponto de vista médico, o mais importante é entender que ele está diretamente relacionado ao desenvolvimento da aterosclerose, o acúmulo de placas de gordura nas artérias.
A apolipoproteína B, ou apoB, é uma proteína presente nas principais partículas aterogênicas, ou seja, nas partículas que participam da formação de placas nas artérias. Quando o LDL e a apoB aumentam, o risco de depósito de colesterol na parede arterial também aumenta.
Um ponto importante é que essa piora pode acontecer em um período relativamente curto, especialmente ao redor da última menstruação. Ou seja, uma mulher que tinha exames considerados bons aos 42 ou 45 anos pode apresentar mudanças relevantes poucos anos depois. Por isso, não é adequado passar muitos anos sem reavaliar o colesterol nessa fase da vida.
E o HDL, o “colesterol bom”, continua protegendo?
O HDL-colesterol é popularmente chamado de “colesterol bom”, mas essa explicação é simplificada demais. Durante muito tempo, acreditou-se que quanto maior o HDL, melhor. Hoje sabemos que a situação é mais complexa. O HDL não deve ser avaliado apenas pela quantidade, mas também pela qualidade e pela função das partículas.
Após a menopausa, algumas mulheres podem apresentar alterações na funcionalidade do HDL. Isso significa que um HDL numericamente alto nem sempre representa a mesma proteção cardiovascular observada em fases anteriores da vida. Em algumas pesquisas, níveis mais altos de HDL após a menopausa não se associaram necessariamente a menor aterosclerose. Isso não significa que o HDL seja “ruim”, mas mostra que não devemos olhar para um único número isoladamente.
Na prática clínica, é mais seguro avaliar o conjunto: LDL, não-HDL, triglicerídeos, apoB quando indicada, pressão arterial, glicose, hemoglobina glicada, peso, circunferência abdominal, histórico familiar e presença de outros fatores de risco.
Por que muitas mulheres aumentam a gordura abdominal na menopausa?
O ganho de gordura abdominal é uma das queixas mais comuns nessa fase. Muitas mulheres dizem: “não mudei tanto a alimentação, mas comecei a ganhar barriga”. Isso pode acontecer por vários motivos.
Durante o climatério e a menopausa, há redução da taxa metabólica basal, perda gradual de massa muscular, piora do sono, maior fadiga, redução da atividade física, mudanças no humor e maior facilidade de acúmulo de gordura visceral. A queda estrogênica também favorece mudança na distribuição da gordura corporal. A mulher que antes acumulava mais gordura em quadris e coxas pode passar a acumular mais gordura na região abdominal.
Essa mudança não é apenas estética. A gordura visceral é metabolicamente ativa e se relaciona com inflamação, resistência à insulina, aumento dos triglicerídeos, queda da sensibilidade à insulina, maior risco de diabetes tipo 2 e maior risco cardiovascular.
Por isso, a medida da circunferência abdominal pode ser tão importante quanto o peso na balança. Duas mulheres com o mesmo peso podem ter riscos cardiometabólicos diferentes dependendo da quantidade de gordura visceral, massa muscular e distribuição corporal.
Menopausa causa hipertensão?
A relação entre menopausa e pressão arterial é complexa. O envelhecimento, por si só, aumenta o risco de hipertensão. Mas a menopausa pode contribuir para mudanças que favorecem elevação da pressão, como aumento da rigidez arterial, ativação do sistema nervoso simpático, alterações no sistema renina-angiotensina-aldosterona, ganho de peso e piora da composição corporal.
A pressão pode começar a subir de forma silenciosa. Muitas mulheres passam anos sem sintomas, acreditando que está tudo bem, até descobrirem hipertensão em uma consulta de rotina. Por isso, aferir a pressão corretamente é fundamental, principalmente depois dos 45 anos ou antes, quando há histórico familiar, obesidade, diabetes, doença renal, tabagismo ou colesterol alto.
Em alguns casos, pode ser necessário complementar a avaliação com MAPA ou MRPA, exames que medem a pressão fora do ambiente do consultório e ajudam a identificar hipertensão mascarada, hipertensão do avental branco e padrões de pressão durante o dia e a noite.
Resistência à insulina, diabetes e síndrome metabólica
A menopausa também pode favorecer o agrupamento de alterações metabólicas. Muitas mulheres passam a apresentar aumento da circunferência abdominal, triglicerídeos elevados, HDL mais baixo ou disfuncional, pressão arterial aumentada e glicose alterada. Esse conjunto é conhecido como síndrome metabólica.
A síndrome metabólica é importante porque indica um estado de maior risco para diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Ela costuma estar ligada à resistência à insulina, situação em que o organismo precisa produzir mais insulina para manter a glicose controlada. Com o tempo, esse mecanismo pode falhar, levando ao pré-diabetes ou ao diabetes.
É importante destacar que glicose de jejum normal não exclui completamente risco metabólico. Em algumas pessoas, a hemoglobina glicada, a insulina, os triglicerídeos, a circunferência abdominal e a história clínica ajudam a montar um quadro mais completo.
O que acontece com as artérias na menopausa?
As artérias não são tubos rígidos. Elas têm capacidade de dilatar, contrair e responder às necessidades do organismo. Com a queda do estrogênio e o avanço da idade, pode ocorrer piora da função endotelial. O endotélio é a camada interna dos vasos sanguíneos e tem papel essencial na regulação da circulação, da coagulação, da inflamação e do tônus vascular.
Quando o endotélio não funciona bem, há maior tendência a vasoconstrição, inflamação e formação de placas ateroscleróticas. Além disso, as artérias podem se tornar mais rígidas. A rigidez arterial aumenta a carga de trabalho do coração e se associa a maior risco cardiovascular.
Estudos em mulheres de meia-idade mostram que a transição menopáusica pode ser acompanhada de aumento da rigidez arterial e de alterações estruturais nas carótidas, artérias localizadas no pescoço e importantes para a circulação cerebral. Essas mudanças reforçam a ideia de que o climatério é um período de oportunidade para agir cedo.
Menopausa precoce aumenta o risco cardiovascular?
Sim. Mulheres que entram na menopausa antes dos 40 anos, ou mesmo antes dos 45 anos, apresentam maior risco cardiovascular ao longo da vida. Isso acontece porque ficam mais tempo expostas à deficiência estrogênica e às alterações metabólicas associadas.
A menopausa precoce deve ser vista como um marcador importante na história clínica da mulher. Assim como perguntamos sobre pressão alta, diabetes, colesterol, tabagismo e histórico familiar, também devemos perguntar sobre a idade da primeira menstruação, complicações da gravidez, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, síndrome dos ovários policísticos, menopausa precoce e uso de terapia hormonal.
Esses dados fazem parte da chamada história reprodutiva e ajudam a entender melhor o risco cardiovascular feminino. Muitas vezes, uma mulher pode parecer de risco baixo pelos cálculos tradicionais, mas ter fatores específicos da vida reprodutiva que aumentam sua vulnerabilidade.
Toda mulher na menopausa precisa tomar hormônio para proteger o coração?
Não. A terapia hormonal da menopausa pode ser muito útil para controle de sintomas em mulheres bem selecionadas, especialmente sintomas vasomotores intensos, como fogachos e sudorese noturna, além de impacto sobre sono e qualidade de vida. Porém, ela não deve ser indicada com o objetivo principal de prevenir infarto ou AVC.
A decisão sobre terapia hormonal precisa ser individualizada, considerando idade, tempo desde a menopausa, sintomas, risco cardiovascular, risco de trombose, histórico de câncer de mama, útero, fígado, enxaqueca, tabagismo e outros fatores. Em geral, o perfil de risco tende a ser diferente quando a terapia é iniciada em mulheres mais jovens, próximas da menopausa, em comparação com início tardio muitos anos depois.
Portanto, a mensagem correta é: menopausa exige avaliação cardiovascular cuidadosa, mas terapia hormonal não substitui controle de pressão, colesterol, peso, glicose, sono, alimentação e atividade física.
Quais exames considerar nessa fase?
A avaliação deve ser individualizada, mas alguns exames costumam ser úteis na mulher em climatério ou menopausa. Entre eles estão colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum, hemoglobina glicada, função renal, função hepática, TSH quando indicado, pressão arterial medida corretamente, avaliação do peso, índice de massa corporal e circunferência abdominal.
Em mulheres com risco maior, pode fazer sentido avaliar apolipoproteína B, lipoproteína(a), proteína C reativa ultrassensível em casos selecionados, escore de cálcio coronariano, ultrassom de carótidas ou outros exames cardiovasculares conforme a história clínica. Não existe uma lista única para todas as mulheres. O mais importante é avaliar risco global, sintomas, antecedentes pessoais, histórico familiar e idade da menopausa.
Como proteger o coração durante e após a menopausa?
A prevenção cardiovascular na menopausa começa com medidas básicas, mas poderosas. A primeira é acompanhar a pressão arterial. A segunda é conhecer o próprio colesterol, especialmente o LDL. A terceira é observar a glicose e sinais de resistência à insulina. A quarta é cuidar da composição corporal, preservando massa muscular e reduzindo gordura visceral.
A atividade física tem papel central. O ideal é combinar exercícios aeróbicos, como caminhada, bicicleta ou natação, com musculação ou treino de força. O treino de força é especialmente importante porque ajuda a preservar massa muscular, melhora a sensibilidade à insulina, auxilia no controle do peso e contribui para saúde óssea.
A alimentação deve priorizar comida de verdade: verduras, legumes, frutas, feijões, lentilha, grão-de-bico, cereais integrais, azeite, castanhas, peixes, ovos, carnes magras e laticínios quando tolerados. Dietas com padrão mediterrâneo ou DASH são boas referências para saúde cardiovascular. Ao mesmo tempo, é importante reduzir ultraprocessados, excesso de açúcar, bebidas alcoólicas frequentes, embutidos, frituras e excesso de sal.
Dormir bem também importa. A menopausa pode piorar o sono, e o sono ruim aumenta fome, piora resistência à insulina, favorece ganho de peso, eleva pressão arterial e prejudica o controle emocional. Quando há roncos, pausas respiratórias ou sonolência diurna, a apneia do sono deve ser investigada.
Quando procurar um cardiologista?
A mulher deve procurar avaliação cardiológica se apresentar dor no peito, falta de ar aos esforços, palpitações, desmaios, pressão alta, colesterol elevado, diabetes, histórico familiar de infarto ou AVC precoce, menopausa precoce, obesidade abdominal ou múltiplos fatores de risco.
Mesmo sem sintomas, uma consulta preventiva pode ser muito útil ao redor dos 45 a 55 anos, justamente porque essa fase permite identificar riscos antes que eles se transformem em doença estabelecida. A prevenção é sempre mais eficiente quando começa antes do infarto, antes do AVC e antes da insuficiência cardíaca.
Conclusão: a menopausa é uma janela de oportunidade para prevenção
A menopausa não deve ser encarada como uma doença, mas também não deve ser ignorada do ponto de vista cardiovascular. Ela representa uma fase de mudança hormonal, metabólica e vascular que pode acelerar fatores de risco para o coração.
A queda do estrogênio pode contribuir para piora do colesterol, aumento da gordura abdominal, maior resistência à insulina, rigidez arterial, disfunção endotelial e elevação do risco cardiovascular. A idade da menopausa também importa: quanto mais precoce, maior a atenção necessária.
A boa notícia é que esse risco pode ser monitorado e reduzido. Avaliar pressão, colesterol, glicose, peso, circunferência abdominal, sono, alimentação, atividade física e história reprodutiva permite uma estratégia preventiva personalizada. Para muitas mulheres, o climatério é o momento ideal para reorganizar a saúde, reduzir riscos e construir uma vida mais longa, ativa e protegida.
Escrito por: Ênio Panetti Usiglio CRM 52 56781-1, médico especialista em cardiologia pela sociedade brasileira de cardiologia (RQE 24185), membro da sociedade brasileira de hipertensão arterial.
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Referências:
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