Vitamina D: O que o novo consenso da Endocrine Society 2024 revela sobre saúde, prevenção e suplementação
- Equipe Ênio Panetti

- 10 de nov. de 2025
- 6 min de leitura

A vitamina D é conhecida como o “hormônio do sol”. Apesar de ser chamada de vitamina, ela funciona muito mais como um hormônio, participando de diversos processos fundamentais no organismo. Nos últimos anos, o interesse em torno da vitamina D explodiu: será que ela previne doenças? Será que precisamos suplementar? Devo pedir exame de sangue para medir meus níveis?
Em junho de 2024, a Endocrine Society, uma das instituições médicas mais respeitadas do mundo, lançou um novo consenso científico com base nas melhores evidências disponíveis até agora. O documento traz recomendações claras sobre quando realmente vale a pena suplementar vitamina D, quem deve fazer exames e quais são os grupos que mais se beneficiam.
Neste artigo, vamos traduzir esse consenso de forma simples e prática, para que você entenda como a vitamina D influencia a saúde, quem precisa de suplementação e quais os riscos de usar sem necessidade.
Por que a vitamina D é tão importante?
A vitamina D não atua apenas nos ossos, como muita gente pensa. É verdade que ela ajuda a manter o cálcio fixado e previne doenças como osteoporose e raquitismo, mas seu papel vai muito além disso.
Estudos mostram que a vitamina D participa de processos de imunidade, saúde cardiovascular, prevenção de diabetes, funcionamento muscular, controle da pressão arterial e até na gestação.
Por esse motivo, ao longo dos últimos anos, houve um aumento enorme na prescrição de exames e de suplementos. Só que, segundo o novo consenso, isso pode estar acontecendo de forma exagerada e desnecessária.
O que o consenso de 2024 traz de novidade?
O novo guideline da Endocrine Society se chama “Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline”, publicado em junho de 2024 no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.
A principal mensagem é clara: nem todo mundo precisa tomar vitamina D, nem sair pedindo exame para medir os níveis no sangue. O consenso recomenda focar em grupos de maior risco e evitar suplementação indiscriminada.
Vamos detalhar cada ponto.
Quem realmente deve suplementar vitamina D?
O consenso de 2024 identificou quatro grupos que podem se beneficiar de suplementação mesmo sem exames prévios:
1. Crianças e adolescentes (1 a 18 anos)
A suplementação ajuda a prevenir raquitismo (doença que enfraquece os ossos).
Pode reduzir também o risco de infecções respiratórias recorrentes.
Nos estudos, as doses variaram bastante, mas em média ficavam em torno de 1.200 UI por dia.
2. Gestantes
A suplementação está associada a menor risco de pré-eclâmpsia, parto prematuro, natimortalidade e baixo peso ao nascer.
A média usada nos estudos foi de cerca de 2.500 UI por dia.
Esse é um dos grupos mais importantes, porque a vitamina D afeta tanto a saúde da mãe quanto a do bebê.
3. Idosos acima de 75 anos
A suplementação mostrou benefício em reduzir mortalidade nessa faixa etária.
As doses médias giraram em torno de 900 UI por dia.
O efeito parece estar ligado à melhora da imunidade, redução de quedas e proteção cardiovascular.
4. Pessoas com pré-diabetes
Estudos sugerem que a suplementação pode retardar a evolução para diabetes tipo 2 em indivíduos de alto risco.
As doses variaram muito, mas a média foi de cerca de 3.500 UI por dia.
Quem não precisa suplementar?
Adultos saudáveis com menos de 75 anos, que não estejam gestantes nem tenham pré-diabetes, não devem suplementar vitamina D de forma empírica.
Para esse grupo, basta seguir a ingestão recomendada pela IOM (Instituto de Medicina dos EUA):
600 UI por dia até os 70 anos.
800 UI por dia acima dos 70 anos.
Essa quantidade pode ser obtida com uma alimentação equilibrada e exposição solar moderada.
E os exames de vitamina D no sangue?
Uma das recomendações mais fortes do consenso é: não se deve pedir exames de vitamina D de rotina em pessoas saudáveis.
Mesmo em grupos com pele mais escura ou pessoas com obesidade, não há evidência de que dosar a 25-hidroxivitamina D (o exame mais comum) traga benefício prático para a saúde.
O exame deve ser reservado para situações específicas, como doenças ósseas, uso de alguns medicamentos ou condições médicas que realmente alteram o metabolismo da vitamina D.
Como deve ser feita a suplementação?
Outro ponto importante do consenso: quando houver necessidade de suplementação, ela deve ser feita com doses diárias e moderadas, e não com megadoses semanais ou mensais.
Isso porque os estudos mostraram que o uso de doses altas em intervalos longos pode não trazer os mesmos benefícios, e em alguns casos até aumentar riscos.
Portanto, a forma mais segura e eficaz é usar doses menores, mas de forma contínua.
Vitamina D e saúde do coração
Como este texto também se conecta com a cardiologia, vale destacar a relação entre vitamina D e saúde cardiovascular.
A deficiência de vitamina D já foi associada a hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, infarto e até arritmias. No entanto, os grandes estudos clínicos mostram que a suplementação só traz benefícios claros em grupos específicos, como idosos e pessoas de risco aumentado.
Isso significa que, para um adulto saudável de meia-idade, a suplementação não é garantia de proteção contra infarto ou derrame. Mas para idosos acima de 75 anos, o consenso de 2024 reconhece que há redução na mortalidade geral — e parte desse efeito pode estar ligada à proteção cardiovascular.
Vitamina D, nutrologia e metabolismo
No campo da nutrologia, a vitamina D ganha destaque especial. Ela influencia diretamente a regulação da glicose, a sensibilidade à insulina e até o metabolismo energético.
Nos pacientes com pré-diabetes, por exemplo, a suplementação pode retardar a progressão para diabetes tipo 2. Esse achado é extremamente relevante, já que o Brasil tem milhões de pessoas nessa condição e a vitamina D pode se tornar um aliado simples e barato para prevenção.
Além disso, como a vitamina D também participa da saúde muscular, sua suplementação pode ajudar em pacientes com sarcopenia, fadiga crônica e baixa disposição física — situações comuns em consultórios de nutrologia.
Fontes naturais de vitamina D
Mesmo com a popularização dos suplementos, não podemos esquecer das fontes naturais:
Exposição solar: cerca de 15 a 20 minutos de sol em braços e pernas, 3 vezes por semana, já é suficiente para a maioria das pessoas.
Alimentação: peixes gordurosos (salmão, sardinha), ovos, fígado e alimentos fortificados (como alguns leites.)
No entanto, é difícil atingir as doses ideais apenas com dieta, especialmente em pessoas com pouca exposição ao sol — por isso a suplementação acaba sendo necessária em alguns casos.
Riscos do excesso de vitamina D
Muita gente acredita que, por ser uma vitamina, não há problema em tomar em excesso. Mas a verdade é que a vitamina D em doses muito altas pode ser tóxica.
O excesso pode levar a hipercalcemia, que causa sintomas como:
Náuseas, vômitos, sede excessiva e confusão mental.
Em casos graves, pode gerar lesão renal e arritmias cardíacas.
Hepatite por hipervitaminose.
Por isso, mesmo em grupos que precisam suplementar, as doses devem ser moderadas e acompanhadas por orientação médica.
O que este consenso muda na prática?
O consenso da Endocrine Society 2024 muda a forma como médicos e pacientes devem encarar a vitamina D:
Sai a suplementação indiscriminada. Agora, só alguns grupos realmente precisam dela.
Sai a testagem de rotina. O exame de vitamina D deve ser feito apenas quando houver motivo clínico.
Entra a suplementação inteligente. Doses diárias, moderadas, contínuas — não megadoses intermitentes.
Foco na prevenção de doenças específicas. O benefício não é para todos, mas sim para crianças, gestantes, idosos e pessoas com pré-diabetes.
Conclusão
A vitamina D continua sendo essencial para a saúde, mas a ciência mostra que menos pode ser mais.
O novo consenso da Endocrine Society 2024 reforça que nem todos precisam suplementar ou medir níveis no sangue. A suplementação deve ser individualizada, segura e direcionada a quem realmente se beneficia:
Crianças e adolescentes.
Gestantes.
Idosos acima de 75 anos.
Pessoas com pré-diabetes.
Para os demais, manter uma vida equilibrada, com boa alimentação e exposição solar adequada, já é suficiente.
Assim, a vitamina D deixa de ser vista como uma “pílula mágica” e passa a ser encarada como o que realmente é: um recurso valioso, mas que precisa ser usado com critério médico, especialmente na cardiologia e na nutrologia.
✅ Palavras finais: Se você tem dúvidas sobre suplementação, procure sempre orientação médica. Cada organismo é único, e o excesso de cuidado pode ser tão prejudicial quanto a falta dele.
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