Quanto tempo antes do infarto aparecem os sintomas?
- Dr Ênio Usiglio Panetti | CRM 5256781-1

- 15 de jun.
- 7 min de leitura

Uma das perguntas mais pesquisadas na internet é: quanto tempo antes do infarto aparecem os sintomas? A resposta mais honesta é: depende. Em algumas pessoas, os sintomas surgem no exato momento do infarto, de forma súbita e intensa. Em outras, podem aparecer sinais de alerta horas, dias ou até semanas antes, principalmente na forma de dor no peito aos esforços, falta de ar, cansaço desproporcional ou piora de uma angina que já existia.
Mas existe uma ideia fundamental que precisa ser entendida: o infarto quase nunca começa no dia em que a pessoa sente dor. O evento agudo pode começar naquele momento, mas a doença que levou ao infarto normalmente vem se formando durante anos, silenciosamente, dentro das artérias coronárias.
As artérias coronárias são os vasos que levam sangue rico em oxigênio para o músculo do coração. Quando uma dessas artérias entope de forma importante, parte do músculo cardíaco deixa de receber sangue. Isso é o que chamamos de infarto agudo do miocárdio. Na maioria das vezes, esse entupimento acontece sobre uma placa de aterosclerose, uma placa de gordura e inflamação que se desenvolveu lentamente na parede da artéria. Quando essa placa se rompe, o organismo forma um coágulo no local, e esse coágulo pode bloquear a passagem do sangue. O National Heart, Lung, and Blood Institute descreve a doença coronariana como a principal causa de infarto, geralmente relacionada ao acúmulo de placas dentro das artérias.
Os sintomas do infarto podem aparecer no momento do evento
Muitas pessoas imaginam que sempre haverá um aviso claro antes do infarto. Infelizmente, nem sempre é assim. Em alguns casos, a primeira manifestação da doença coronariana é justamente o infarto. A pessoa pode estar aparentemente bem e, de repente, sentir uma dor forte no peito, falta de ar, suor frio, náuseas ou mal-estar intenso.
Os sintomas clássicos do infarto incluem dor, pressão, aperto, peso ou queimação no peito. A dor costuma ficar no centro do tórax ou no lado esquerdo, mas isso não é uma regra absoluta. Ela pode irradiar para o braço esquerdo, os dois braços, ombros, costas, pescoço, mandíbula ou região superior do abdômen. A American Heart Association lista como sinais de alerta do infarto o desconforto no peito, dor ou desconforto em braços, costas, pescoço, mandíbula ou estômago, falta de ar, suor frio, náusea e tontura.
Uma forma prática de explicar a localização da dor é dizer que o desconforto de origem cardíaca pode aparecer em uma faixa que vai da mandíbula até a região próxima à cicatriz umbilical, especialmente na parte superior do abdômen. Isso não significa que toda dor nessa região seja infarto, mas significa que o infarto pode se manifestar de maneiras que confundem o paciente. Algumas pessoas acham que estão com gastrite, refluxo, dor muscular, ansiedade ou má digestão.
A dor do infarto geralmente tem algumas características importantes: pode ser em aperto, peso, pressão, queimação ou sufocamento; costuma durar mais do que alguns minutos; pode piorar com esforço ou surgir em repouso; e frequentemente vem acompanhada de suor frio, palidez, náuseas, vômitos, falta de ar, fraqueza ou sensação de morte iminente. Em idosos, mulheres e pessoas com diabetes, o quadro pode ser menos típico, com menos dor no peito e mais sintomas como cansaço extremo, falta de ar, confusão, enjoo ou mal-estar inespecífico.
Pode haver sintomas dias ou semanas antes?
Sim. Algumas pessoas apresentam sintomas antes do infarto propriamente dito. Esses sintomas podem representar uma fase de instabilidade da circulação coronariana. O paciente começa a notar dor no peito aos esforços, falta de ar ao subir escadas, pressão no tórax ao caminhar mais rápido, desconforto depois de refeições pesadas ou dor que antes aparecia apenas em grandes esforços e passa a surgir com esforços menores.
Esse padrão pode ser um sinal de angina, que é a dor ou desconforto causado pela redução do fluxo de sangue para o coração. A angina é como um aviso de que o músculo cardíaco está recebendo menos oxigênio do que precisa em determinadas situações.
Aqui vale uma correção importante, porque o termo costuma gerar confusão. A angina estável é aquela que aparece em um padrão previsível, geralmente com um limiar relativamente fixo. Por exemplo: a pessoa sempre sente dor quando sobe dois lances de escada, caminha rápido ou faz esforço semelhante. Ela para, descansa, e a dor melhora. Esse é o padrão clássico de angina estável.
Já a angina instável é mais preocupante. Ela ocorre quando há mudança no padrão da dor: dor nova, dor mais forte, dor que aparece com esforços menores do que antes, dor em repouso ou dor que demora mais para melhorar. A Mayo Clinic destaca que dor no peito nova, piora de uma angina já conhecida ou dor que não melhora com repouso pode indicar situação de risco e exigir avaliação imediata.
Portanto, quando alguém pergunta “quanto tempo antes do infarto aparecem os sintomas?”, uma resposta possível é: às vezes, minutos antes; às vezes, horas antes; às vezes, dias ou semanas antes; e às vezes não há aviso claro. O mais importante é não esperar para ver se passa quando o sintoma tem características suspeitas.
Como é a dor do infarto?
A dor do infarto nem sempre é uma “pontada”. Na verdade, a pontada localizada, que piora ao apertar com o dedo ou ao respirar fundo, muitas vezes tem outras causas. A dor cardíaca clássica costuma ser mais difusa, como se fosse uma pressão interna, um peso ou um aperto.
Muitos pacientes descrevem como “um elefante sentado no peito”, “uma opressão”, “um arrocho”, “uma queimação forte” ou “uma sensação de aperto que não passa”. Ela pode irradiar para o braço esquerdo, mas também pode ir para o braço direito, os dois braços, costas, mandíbula, garganta, pescoço ou parte alta da barriga.
Outro ponto importante é a duração. Uma dor muito rápida, de segundos, costuma ser menos típica de infarto. Já uma dor que dura mais de 10 a 20 minutos, especialmente se vem acompanhada de suor frio, náusea, falta de ar ou mal-estar intenso, deve ser encarada com seriedade.
É importante lembrar: não existe uma descrição única que sirva para todos. O infarto pode se apresentar de forma atípica, principalmente em mulheres, idosos, diabéticos e pessoas com doença renal. Por isso, diante de sintomas suspeitos, especialmente em quem tem fatores de risco cardiovascular, a conduta segura é procurar atendimento de emergência.
O infarto não começa no dia da dor
Embora o infarto pareça um evento repentino, ele costuma ser o resultado final de um processo longo. Durante anos, fatores de risco vão agredindo a parede das artérias. O colesterol LDL elevado favorece o acúmulo de gordura na parede vascular. A hipertensão aumenta o estresse sobre as artérias. O diabetes acelera a inflamação e a aterosclerose. O tabagismo lesiona o endotélio, que é a camada interna dos vasos. O sedentarismo, o excesso de peso, a alimentação inadequada, a resistência à insulina, a apneia do sono e fatores genéticos também contribuem.
Com o tempo, forma-se a placa de aterosclerose. Essa placa pode crescer e estreitar a artéria aos poucos, reduzindo a passagem de sangue. Em outros casos, uma placa que nem parecia causar uma obstrução tão grave pode se romper de forma súbita. Quando isso acontece, o corpo entende aquela ruptura como uma ferida dentro do vaso e forma um coágulo. O problema é que esse coágulo pode obstruir a coronária. A Mayo Clinic explica que as placas nas artérias podem estreitar o vaso e também se romper, levando à formação de coágulos.
É por isso que uma pessoa pode dizer: “Mas eu estava bem ontem”. Ela podia estar sem sintomas, mas talvez já tivesse doença aterosclerótica silenciosa há muitos anos.
Fatores de risco que aumentam a chance de infarto
Os principais fatores de risco para infarto são bem conhecidos. Entre eles estão hipertensão arterial, colesterol alto, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo, alimentação rica em ultraprocessados, histórico familiar de doença cardiovascular precoce, doença renal crônica, estresse crônico, apneia do sono e idade.
A hipertensão, por exemplo, muitas vezes não causa sintomas, mas aumenta progressivamente o risco de lesão nas artérias, AVC, insuficiência cardíaca e infarto. O colesterol alto também costuma ser silencioso. A pessoa pode ter LDL elevado por décadas sem sentir nada, até que uma placa coronariana cause angina ou infarto.
O diabetes merece atenção especial porque pode acelerar a aterosclerose e, ao mesmo tempo, reduzir a percepção da dor em alguns pacientes. Por isso, algumas pessoas diabéticas podem ter infarto com sintomas menos exuberantes, como falta de ar, sudorese, fraqueza, náusea ou mal-estar.
O tabagismo é outro fator decisivo. Ele aumenta inflamação, favorece trombose, piora a função dos vasos e acelera a doença coronariana. Parar de fumar é uma das medidas mais importantes para reduzir risco cardiovascular.
“Doutor, então como saber se estou perto de ter um infarto?”
Nem sempre dá para saber apenas pelos sintomas. Essa é uma das mensagens mais importantes. Esperar o corpo “avisar” pode ser perigoso, porque a aterosclerose pode avançar em silêncio. A melhor estratégia é identificar e tratar os fatores de risco antes que ocorra um evento.
Isso envolve medir pressão arterial, avaliar colesterol, glicemia, hemoglobina glicada, função renal, peso, circunferência abdominal, histórico familiar, hábitos de vida e, em alguns casos, realizar exames cardiológicos de acordo com o risco individual. Em pessoas selecionadas, exames como teste ergométrico, ecocardiograma, escore de cálcio, angiotomografia de coronárias ou cintilografia podem ajudar, mas eles devem ser indicados conforme a avaliação médica.
A prevenção é muito mais poderosa do que tentar adivinhar quando um infarto vai acontecer.
Quando procurar emergência?
Procure atendimento imediatamente se houver dor, pressão, peso ou queimação no peito que dure mais de alguns minutos, especialmente se vier com falta de ar, suor frio, náuseas, tontura, desmaio, palidez ou irradiação para braço, mandíbula, costas ou abdômen superior.
Também é motivo de alerta uma dor no peito nova, uma dor que aparece em repouso, uma angina que mudou de padrão ou um desconforto que surge com esforços cada vez menores. Nesses casos, não é prudente esperar consulta de rotina. O ideal é avaliação urgente.
Conclusão: quanto tempo antes do infarto aparecem os sintomas?
Os sintomas do infarto podem aparecer no momento do infarto, mas também podem surgir horas, dias ou semanas antes, especialmente quando há angina instável ou piora progressiva de sintomas aos esforços. Em algumas pessoas, infelizmente, o primeiro sinal pode ser o próprio infarto.
Porém, a mensagem mais importante é outra: o infarto geralmente é o desfecho agudo de uma doença crônica das artérias coronárias. Ele pode parecer repentino, mas costuma ser construído ao longo de anos por fatores como hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo, sedentarismo, excesso de peso e predisposição genética.
Por isso, mais importante do que perguntar apenas “quanto tempo antes aparecem os sintomas?” é perguntar: como está o meu risco cardiovascular hoje? Controlar pressão, colesterol, glicose, peso, alimentação, atividade física e tabagismo é a melhor forma de reduzir a chance de que a primeira manifestação da doença coronariana seja um infarto.
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Escrito por: Ênio Panetti Usiglio CRM 52 56781-1, médico especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (RQE 24185), membro da Sociedade Brasileira de Hipertensão Arterial.



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