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Medicamentos para obesidade: quando devem ser utilizados

No consultório, eu costumo explicar assim: existem pessoas que conseguem emagrecer com mudanças de alimentação, atividade física e sono. E isso é ótimo. Mas existe um grupo grande de pessoas em que, mesmo fazendo “tudo certo” por um tempo ou não temos sucesso ou após uma perda inicial, o peso volta — não porque elas são fracas, mas porque a doença é forte. É aí que a medicação tem lugar. Já agora, é preciso explicar: a obesidade é uma doença crônica e a observação das medidas para manter o peso no patamar saudável precisam ser mantidas. Algumas vezes essa medida é farmacológica.


As diretrizes costumam usar critérios práticos: IMC ≥ 30, ou IMC ≥ 27 com comorbidades (como hipertensão, pré-diabetes/diabetes, dislipidemia, apneia). Esse tipo de raciocínio aparece em recomendações de sociedades e também no próprio critério de indicação em rótulos regulatórios de medicamentos para controle crônico do peso. 


E tem um ponto que eu gosto de reforçar: a medicação não entra só por causa do número na balança. Ela entra quando existe um conjunto de fatores, como:

  • histórico de efeito sanfona (perde e recupera repetidamente),

  • fome difícil de controlar, especialmente à noite,

  • comorbidades que se beneficiariam de perda de peso (pressão alta, apneia, resistência à insulina/diabetes, esteatose hepatica),

  • risco cardiovascular mais alto,

  • falha de estratégias anteriores apesar de tentativas realistas.

O recado aqui é simples e novamente vou dizer: obesidade é doença crônica e, em doenças crônicas, às vezes a gente precisa de tratamento contínuo — como acontece com hipertensão, asma, diabetes.

E isso não é “minha opinião isolada”. A própria OMS publicou, em dezembro de 2025, uma diretriz global sobre uso de terapias do tipo GLP-1 (incluindo agonistas de GLP-1 como a semaglutida - Ozempic e agonistas duplos GLP-1/GIP como a tirzepatida - Mounjaro) para tratamento de obesidade em adultos, enfatizando uso junto de mudanças de estilo de vida e discutindo limitações como custo, acesso e incertezas de longo prazo. 



Por que as “canetas da moda” GLP-1(Ozempic) e tirzepatida (Mounjaro) viraram um “boom”?


As canetas emagrecedoras viraram manchete não só na imprensa e nas redes sociais como no dia a dia. O motivo principal é que, para muitos pacientes, esses remédios trouxeram uma experiência que pouca gente tinha tido antes: menos fome e perda de peso mais consistente.

Muita gente descreve assim: “Doutor, eu não sabia que era possível passar o dia sem pensar em comida”. Esse tipo de relato é comum porque essas medicações atuam em sinais de saciedade e apetite. Ou seja: elas não são “termogênico”, não são “queimador milagroso”. Elas são, em boa parte, moduladores de apetite e de comportamento alimentar, deixando mais fácil fazer o básico.


O que é GLP-1?

GLP-1 é um hormônio que o nosso intestino produz depois que a gente come. Ele participa de sinais de saciedade e também do controle da glicose em pessoas com diabetes. Os medicamentos “agonistas de GLP-1” são versões que imitam esse sinal por mais tempo.

A semaglutida (Ozempic) por exemplo tem indicação para manejo crônico do peso em apresentações específicas, com esquema de escalonamento de dose e manutenção descritos em bula regulatória. 


E a tirzepatida (Mounjaro)?

A  tirzepatida, é um agonista duplo (GLP-1 e GIP). Ela também entrou no noticiário porque, em estudos e na prática, pode produzir perdas de peso maiores em muitos pacientes do que os agonistas de GLP-1 isolados, embora isso varie e dependa de adesão, dose, tolerância e contexto clínico. A aprovação regulatória para controle crônico do peso nos EUA descreve indicação, critérios e uso em conjunto com dieta hipocalórica e atividade física. 

O ponto principal do “boom” é esse: quando você reduz fome e impulsividade alimentar, você destrava a capacidade de seguir um plano. A pessoa não vira outra pessoa. Ela apenas deixa de lutar o tempo inteiro contra um sinal biológico forte.


Mas aqui vai a frase que eu faço questão de repetir: medicamentos para obesidade não substituem pilar

Mesmo nos documentos e recomendações mais favoráveis às terapias modernas, a mensagem permanece: A medicação é adjuvante a um estilo de vida estruturado. Isso está explícito em recomendações de sociedades médicas e  também no texto de aprovação regulatória: “uso em conjunto com dieta de menor caloria e aumento de atividade física”. 

E eu explico de um jeito bem simples:

  • Dieta (no sentido de padrão alimentar) é o que dá direção ao processo.

  • Atividade física é o que protege seu corpo durante a perda (massa magra, condicionamento, pressão, humor).

  • O sono torna tudo mais fácil. Se tem apneia, tratar ajuda consideravelmente

  • Medicação pode ser a ponte que faltava para você conseguir sustentar os pilares.

Quando a pessoa usa um GLP-1, mas continua dormindo 4–5 horas por noite, vivendo em estresse crônico e comendo sem proteína e fibra, ela pode até perder peso no começo, mas a manutenção fica frágil. E manutenção é o coração do tratamento.


medicamentos para obesidade

O que eu costumo explicar sobre as principais opções:

Vou comentar de forma panorâmica, porque o objetivo aqui é compreensão — não prescrição.

1) Agonistas de GLP-1 (ex.: semaglutida, liraglutida)

Em geral, são medicamentos que ajudam a reduzir apetite e aumentar saciedade. Muita gente também nota melhora do controle glicêmico (especialmente se tem pré-diabetes/diabetes).

O que costuma limitar o uso são efeitos gastrointestinais (náusea, refluxo, intestino preso ou solto), especialmente no início e na subida de dose, além de custo e acesso. Informações de dose, escalonamento e advertências aparecem nas bulas regulatórias. 

2) Tirzepatida (GLP-1/GIP)

O raciocínio é semelhante, com potencial de perda de peso mais robusta em muitos cenários, e também com efeitos gastrointestinais como principal limitador em parte dos pacientes. A bula/rotulagem traz advertências, contraindicações e o contexto de uso como adjuvante de dieta e atividade física. 

3) Naltrexona + bupropiona (Contrave))

É uma combinação que atua em circuitos de apetite/recompensa no cérebro, podendo ajudar em controle de impulso e fome em alguns perfis. Nem todo mundo tolera bem (pode dar náusea, tontura, alteração de sono, entre outros), e a indicação precisa ser individualizada.

4) Orlistate

É um medicamento que reduz a absorção de parte da gordura ingerida. Pode ajudar, mas muita gente abandona por efeitos intestinais (gases, fezes oleosas) e porque exige ajustes alimentares consistentes. É uma opção “menos badalada”, mas ainda existe.

5) Sibutramina (Brasil): por que eu falo com cuidado

A sibutramina tem história longa e ainda é utilizada no Brasil em situações selecionadas, mas exige triagem e cautela por possíveis efeitos em frequência cardíaca e pressão, e por preocupações de risco cardiovascular em certos perfis. Não é uma medicação “para qualquer pessoa”, e esse é um exemplo perfeito de porque não faz sentido tratar remédio de obesidade como “dica de internet”.



“Mas eu vou ter que usar para sempre?”

Eu respondo com outra pergunta: se você tem uma doença crônica que volta quando você tira o tratamento, isso significa que o tratamento estava errado? Não. Significa que a doença é crônica.

A OMS, quando fala em “uso de longo prazo” dessas terapias para obesidade, define longo prazo como tratamento contínuo por meses (por exemplo, 6 meses ou mais), dentro do que é considerado crônico no contexto regulatório, e discute que ainda há incertezas sobre manutenção e descontinuação — e por isso a recomendação é classificada como condicional. 

Na prática, o que eu explico é: muitas pessoas precisam de um tempo de tratamento para atingir um ponto de virada e consolidar rotina. Algumas conseguem depois manter com pilares bem fortes. Outras precisam de tratamento contínuo, com ajustes. Isso é normal em medicina.

O erro é prometer “uso por 3 meses e pronto”. Esse tipo de promessa é o que alimenta o efeito sanfona.


Efeitos colaterais e segurança: 

Não existe remédio “zero efeito colateral”. Existe remédio em que benefício supera risco para o paciente certo, na dose certa, com acompanhamento.

Com GLP-1 e tirzepatida, a maior parte dos efeitos colaterais costuma ser gastrointestinal, principalmente no início e na subida de dose, e por isso existe um escalonamento gradual descrito em bula. 

Também existem contraindicações e alertas específicos (por exemplo, situações particulares como gestação e algumas condições raras relacionadas a tireoide e pâncreas , além de avaliação de histórico clínico). Esses detalhes são exatamente o tipo de coisa que faz a consulta médica ser indispensável.

O que eu gosto de enfatizar é: quando o plano é bem montado — com alimentação ajustada para tolerância (porções menores, proteína, evitar gordura excessiva no início), hidratação e acompanhamento — a chance de desistência por efeito colateral cai bastante.


“Mas eu vi na internet…”

Eu entendo o encanto, porque muita gente está cansada de tentar. Mas eu prefiro uma frase honesta:

Essas medicações ajudam muito, mas não fazem o trabalho todo. Elas facilitam o trabalho certo.

E o trabalho certo é o básico bem feito. Se você come melhor e dorme melhor, você melhora inflamação metabólica, energia e controle de fome. Se você treina força e faz aeróbico de forma sustentável, você protege massa magra, melhora a pressão e melhora a sensibilidade à insulina. E quando você soma isso a uma medicação adequada, o resultado tende a ser mais consistente e, principalmente, mais realista.

As próprias recomendações enfatizam que medicações devem caminhar com mudanças de estilo de vida, não competir com elas. 


Um jeito simples de o leitor entender se “está na hora” de conversar sobre remédio

Eu costumo dizer: se você se reconhece em vários itens abaixo, vale discutir com seu médico a possibilidade de medicação:

  • você emagrece, mas recupera com facilidade (efeito sanfona),

  • sente fome pouco tempo depois de comer, faz refeições muito calóricas, tem padrão belisca dor durante o dia ou mais comumente à noite, come de acordo com seu estado emocional

  • tem comorbidades (pressão alta, apneia, pré-diabetes/diabetes, dislipidemia),

  • já tentou mudanças de estilo de vida com esforço real e não sustentou resultado,

  • precisa de uma estratégia de longo prazo e não quer viver de dieta restritiva.

Medicação não é primeira etapa para todo mundo, mas é uma etapa necessária para muita gente — e isso não diminui ninguém.


Uma palavra final: o lugar certo do remédio é dentro de um plano sério

Eu gosto de encerrar este tema com uma frase que, para mim, resume a maturidade no cuidado: obesidade não é fraqueza; é uma doença tratável. E doença tratável às vezes exige remédio.

O “boom” dos agonistas de GLP-1 e da tirzepatida trouxe algo bom: ele ajudou a sociedade a enxergar que existe biologia envolvida, e que o tratamento pode ser eficaz quando bem feito. Mas o boom também trouxe ruído: promessas fáceis, uso sem avaliação, expectativa irreal.

Meu convite é outro: se você quer um tratamento que funcione de verdade, pense em pilares e em ferramentas. Pilares sempre. Ferramentas quando necessário. E, para muita gente, a ferramenta medicamentosa é exatamente o que permite que os pilares finalmente saiam do papel.


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Ênio Panetti - CRM 52.56781-1




Referências

  1. Endocrine Society. Pharmacological Management of Obesity (recomenda que dieta, exercício e mudanças comportamentais façam parte de toda abordagem; medicamentos podem ser combinados quando indicado).

  2. FDA. Wegovy (semaglutide) – Highlights of Prescribing Information (escalonamento e manutenção; informações regulatórias e advertências).

  3. FDA. Zepbound (tirzepatide) – Press announcement e label (indicação para manejo crônico do peso como adjuvante de dieta e atividade física; informações regulatórias).

  4. WHO. Nota de 01/12/2025: diretriz global sobre uso de terapias tipo GLP-1 para tratamento de obesidade em adultos; recomendação condicional e necessidade de associar a intervenções de estilo de vida.

  5. Celletti F, et al. Artigo no JAMA contextualizando a diretriz da OMS e definindo “uso de longo prazo” no contexto de tratamento contínuo. 


 
 
 

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