Dapagliflozina: guia completo sobre o medicamento
- Dr Ênio Usiglio Panetti | CRM 5256781-1

- há 16 horas
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A dapagliflozina é um medicamento que pertence a uma classe de drogas chamadas inibidores do SGLT2 (cotransportador sódio-glicose tipo 2). Comercializada com o nome Forxiga, a dapagliflozina representa um dos maiores avanços da medicina moderna no tratamento de múltiplas condições que afetam o coração, os rins e o controle do açúcar no sangue.
Inicialmente desenvolvida para tratar diabetes tipo 2, a dapagliflozina surpreendeu a comunidade médica ao demonstrar benefícios extraordinários que vão muito além do controle da glicose. Hoje, este medicamento é reconhecido como uma terapia fundamental para prevenir complicações cardiovasculares e renais, salvando vidas mesmo em pessoas que não têm diabetes.
Como a Dapagliflozina funciona no organismo?
Para entender como a dapagliflozina funciona, é importante conhecer o papel dos rins no processamento da glicose. Normalmente, os rins filtram o sangue e removem resíduos, mas reabsorvem substâncias úteis como a glicose, devolvendo-a para a circulação sanguínea.
Essa reabsorção de glicose acontece principalmente através de uma proteína especial chamada SGLT2, localizada nos túbulos renais proximais. Essa proteína funciona como uma "porta giratória" que captura a glicose filtrada e a devolve para o sangue.
A dapagliflozina age bloqueando essa proteína SGLT2. Ao fazer isso, ela impede que os rins reabsorvam a glicose filtrada, fazendo com que o excesso de açúcar seja eliminado pela urina. Em média, a dapagliflozina promove a eliminação de aproximadamente 70 gramas de glicose por dia através da urina.
Mas os benefícios da dapagliflozina vão muito além da eliminação de glicose. Ao bloquear o SGLT2, o medicamento também reduz a reabsorção de sódio (sal) pelos rins. Isso desencadeia uma série de efeitos benéficos no organismo:
- Redução da pressão arterial: A eliminação de sódio e água ajuda a diminuir a pressão nas artérias
- Alívio da sobrecarga cardíaca: O coração precisa trabalhar menos para bombear o sangue
- Proteção renal: Diminui a pressão dentro dos glomérulos renais, protegendo esses filtros delicados
- Melhora do metabolismo energético: O corpo passa a utilizar gorduras e cetonas como fonte de energia de forma mais eficiente
Esses mecanismos explicam por que a dapagliflozina beneficia não apenas pessoas com diabetes, mas também aquelas com insuficiência cardíaca e doença renal crônica.
Para que serve a dapagliflozina?
A dapagliflozina tem múltiplas indicações aprovadas pelas agências reguladoras de saúde:
Controle do diabetes tipo 2: A dapagliflozina é utilizada como complemento à dieta e exercícios para melhorar o controle da glicose no sangue em adultos e crianças a partir de 10 anos com diabetes tipo 2. Ela reduz os níveis de hemoglobina glicada (HbA1c), glicose em jejum e também promove perda de peso.
Prevenção de complicações cardiovasculares no diabetes: Em pessoas com diabetes tipo 2 que têm doença cardiovascular estabelecida ou múltiplos fatores de risco cardiovascular, a dapagliflozina reduz o risco de hospitalização por insuficiência cardíaca.
Tratamento da insuficiência cardíaca: A dapagliflozina é indicada para reduzir o risco de morte cardiovascular, hospitalização por insuficiência cardíaca e visitas de urgência por insuficiência cardíaca em adultos com insuficiência cardíaca, independentemente de terem ou não diabetes. Isso inclui pacientes com fração de ejeção reduzida, levemente reduzida ou preservada.
Proteção renal na doença renal crônica: A dapagliflozina é utilizada para reduzir o risco de declínio sustentado da função renal, doença renal em estágio terminal, morte cardiovascular e hospitalização por insuficiência cardíaca em adultos com doença renal crônica em risco de progressão, com ou sem diabetes.
A importância dos inibidores do SGLT2: o que dizem os estudos científicos
A eficácia da dapagliflozina e outros inibidores do SGLT2 foi comprovada por uma quantidade impressionante de pesquisas científicas rigorosas. Mais de 13 grandes estudos clínicos envolvendo mais de 90.000 pacientes demonstraram os benefícios extraordinários dessa classe de medicamentos.
Evidências em Diabetes e Prevenção Cardiovascular
Os primeiros grandes estudos com inibidores do SGLT2 foram realizados em pessoas com diabetes tipo 2. Três estudos históricos estabeleceram o papel dessa classe de medicamentos:
EMPA-REG OUTCOME: Este estudo com empagliflozina mostrou redução de 14% em eventos cardiovasculares maiores e impressionantes 38% de redução em mortes cardiovasculares.
CANVAS: O estudo com canagliflozina demonstrou redução de 14% em eventos cardiovasculares maiores.
DECLARE-TIMI 58: Este grande estudo com dapagliflozina incluiu mais de 17.000 pacientes e mostrou redução de 17% no risco de morte cardiovascular ou hospitalização por insuficiência cardíaca.
O achado mais consistente em todos esses estudos foi a redução de 25% a 35% nas hospitalizações por insuficiência cardíaca. Uma meta-análise que combinou 11 estudos com mais de 78.000 participantes confirmou uma redução de 9% em eventos cardiovasculares maiores e 14% em mortalidade cardiovascular.
Revolução no tratamento da insuficiência cardíaca
A descoberta de que os inibidores do SGLT2 beneficiam pacientes com insuficiência cardíaca, mesmo sem diabetes, revolucionou o tratamento dessa condição grave.
DAPA-HF: Este estudo histórico avaliou 4.744 pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida (≤40%), sendo que 55% não tinham diabetes. A dapagliflozina reduziu em 26% o risco combinado de morte cardiovascular, hospitalização por insuficiência cardíaca ou visita urgente por insuficiência cardíaca. Os benefícios foram idênticos em pacientes com e sem diabetes.
DELIVER: Este estudo avaliou a dapagliflozina em pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção levemente reduzida ou preservada (>40%). Os resultados mostraram benefícios semelhantes, expandindo o uso da dapagliflozina para praticamente todos os tipos de insuficiência cardíaca.
Uma meta-análise combinando os estudos DAPA-HF e EMPEROR-Reduced (com empagliflozina) mostrou redução de aproximadamente 30% no risco de hospitalização por insuficiência cardíaca e benefícios consistentes em pacientes com função renal normal ou reduzida.
Uma análise abrangente de cinco grandes estudos incluindo 21.947 pacientes demonstrou que os inibidores do SGLT2 reduzem consistentemente o risco de morte cardiovascular ou hospitalização por insuficiência cardíaca, morte cardiovascular isolada, primeira hospitalização por insuficiência cardíaca e mortalidade por todas as causas.
Proteção renal comprovada
Os inibidores do SGLT2 também demonstraram proteção renal extraordinária em múltiplos estudos:
DAPA-CKD: Este estudo incluiu pacientes com doença renal crônica e albuminúria (proteína na urina), com e sem diabetes. A dapagliflozina reduziu em 39% o risco de piora da função renal, doença renal terminal ou morte por causas renais ou cardiovasculares. Os benefícios foram observados tanto em pacientes com diabetes (redução de 36%) quanto sem diabetes (redução de 50%).
CREDENCE: O estudo com canagliflozina em pacientes com diabetes e doença renal mostrou redução de 30% no risco de eventos renais e cardiovasculares combinados, além de 39% de redução em hospitalizações por insuficiência cardíaca.
EMPA-KIDNEY: O maior estudo focado em doença renal crônica até hoje mostrou que empagliflozina reduziu em 28% a progressão da doença renal ou morte por causas cardiovasculares.
Meta-análises confirmaram que os inibidores do SGLT2 reduzem em 36% a 41% os desfechos renais combinados e em 36% o risco de duplicação da creatinina (marcador de piora grave da função renal). Além disso, esses medicamentos desaceleram o declínio da função renal em aproximadamente 1 mL/min por ano.
Benefícios independentes do diabetes
Um dos achados mais importantes das pesquisas é que os benefícios dos inibidores do SGLT2 ocorrem independentemente da presença de diabetes. Estudos demonstraram proteção cardiovascular e renal consistente em pacientes com e sem diabetes, sugerindo que os mecanismos de ação vão muito além do controle da glicose.
O efeito duradouro da proteção
Estudos de longo prazo sugerem que os benefícios dos inibidores do SGLT2 se acumulam ao longo do tempo. Quanto mais cedo o tratamento é iniciado e quanto mais tempo é mantido, maiores são os benefícios na prevenção de eventos cardiovasculares e renais graves.
Segurança comprovada
Os grandes estudos clínicos demonstraram que a dapagliflozina e outros inibidores do SGLT2 são medicamentos seguros quando usados adequadamente. Não houve aumento de eventos adversos graves, câncer ou problemas hepáticos graves com o uso desses medicamentos.
Quem deve usar dapagliflozina?
A decisão de iniciar o tratamento com dapagliflozina deve ser sempre tomada em conjunto com um médico, que avaliará diversos fatores:
Para diabetes tipo 2:
- Adultos e crianças a partir de 10 anos com diabetes tipo 2 que precisam melhorar o controle da glicose
- Pessoas com diabetes e fatores de risco cardiovascular ou doença cardiovascular estabelecida
Para insuficiência cardíaca:
- Adultos com insuficiência cardíaca sintomática, independentemente da fração de ejeção
- Pacientes com ou sem diabetes
Para doença renal crônica:
- Adultos com doença renal crônica em risco de progressão
- Pacientes com ou sem diabetes
- Geralmente indicada quando há presença de proteína na urina (albuminúria)
Como tomar a dapagliflozina
A dapagliflozina é tomada por via oral, uma vez ao dia, geralmente pela manhã, com ou sem alimentos. A dose varia conforme a indicação:
- Para controle da glicose no diabetes: Geralmente inicia-se com 5 mg uma vez ao dia, podendo ser aumentada para 10 mg se necessário
- Para insuficiência cardíaca e doença renal crônica: A dose recomendada é de 10 mg uma vez ao dia
É fundamental tomar o medicamento regularmente, mesmo que você se sinta bem, pois muitas das condições tratadas pela dapagliflozina não causam sintomas até estágios avançados.
Antes de iniciar a dapagliflozina, o médico avaliará sua função renal através de exames de sangue. O medicamento pode não ser apropriado para pessoas com função renal muito reduzida em certas situações.
Mudanças no estilo de vida são fundamentais
Embora a dapagliflozina seja muito eficaz, ela funciona melhor quando combinada com hábitos de vida saudáveis:
Alimentação equilibrada: Uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais, proteínas magras e pobre em açúcares refinados, gorduras saturadas e sódio.
Atividade física regular: Exercícios físicos ajudam a controlar a glicose, fortalecem o coração e melhoram a função renal.
Manutenção do peso saudável: A perda de peso, quando necessária, melhora o controle do diabetes, reduz a sobrecarga cardíaca e protege os rins.
Controle da pressão arterial: Manter a pressão arterial em níveis adequados é essencial para proteger o coração e os rins.
Não fumar: O tabagismo é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares e renais.
Hidratação adequada: Beber água suficiente é importante, especialmente ao iniciar o tratamento com dapagliflozina.
Possíveis efeitos colaterais
Como qualquer medicamento, a dapagliflozina pode causar efeitos colaterais em algumas pessoas, embora a maioria dos pacientes a tolere bem.
Efeitos colaterais mais comuns:
- Infecções genitais por fungos (candidíase), especialmente em mulheres
- Infecções urinárias
- Aumento da frequência urinária
- Sede aumentada
- Tontura ao levantar-se rapidamente (devido à redução da pressão arterial)
Efeitos colaterais raros mas importantes:
- Cetoacidose diabética (acúmulo de cetonas no sangue), que pode ocorrer mesmo com níveis normais de glicose
- Infecções graves do trato genital ou períneo (gangrena de Fournier) - muito raro
- Desidratação, especialmente em pessoas idosas ou que tomam diuréticos
É importante informar ao médico sobre qualquer sintoma incomum, especialmente:
- Náuseas, vômitos ou dor abdominal persistentes
- Dificuldade para respirar
- Cansaço extremo
- Dor, vermelhidão ou inchaço na região genital
- Febre
Precauções importantes
Hidratação: Ao iniciar a dapagliflozina, é importante manter-se bem hidratado, especialmente em dias quentes ou durante exercícios intensos.
Higiene íntima: Manter boa higiene genital ajuda a prevenir infecções por fungos.
Monitoramento da glicose: Pessoas com diabetes devem continuar monitorando a glicose conforme orientação médica.
Cirurgias: Informe ao médico que você usa dapagliflozina antes de qualquer cirurgia, pois pode ser necessário interromper temporariamente o medicamento.
Interações medicamentosas e alimentares
A dapagliflozina pode interagir com outros medicamentos:
- Diuréticos: O uso conjunto pode aumentar o risco de desidratação e pressão baixa
- Insulina e outros medicamentos para diabetes: Pode ser necessário ajustar as doses para evitar hipoglicemia
- Medicamentos para pressão alta: Pode haver necessidade de ajuste de dose
Sempre informe ao médico sobre todos os medicamentos, vitaminas e suplementos que você está tomando antes de iniciar a dapagliflozina.
Monitoramento e acompanhamento
Após iniciar o tratamento com dapagliflozina, o médico provavelmente solicitará:
- Exames de função renal: Para monitorar como os rins estão respondendo ao tratamento
- Exames de glicose e hemoglobina glicada: Para pessoas com diabetes
- Avaliação da pressão arterial: Para garantir que está em níveis adequados
- Exame de urina: Para verificar presença de proteína e infecções
O acompanhamento regular permite ajustar o tratamento se necessário e garantir que o medicamento está funcionando de forma segura e eficaz.
Quando os resultados aparecem?
Os efeitos da dapagliflozina começam rapidamente:
- Redução da glicose: Começa dentro de dias a semanas
- Perda de peso: Geralmente 2-3 kg nas primeiras semanas a meses
- Melhora dos sintomas de insuficiência cardíaca: Pode ocorrer em semanas
No entanto, os benefícios completos na prevenção de eventos cardiovasculares e renais graves se acumulam ao longo do tempo. Estudos mostram que os benefícios continuam aumentando quanto mais tempo a pessoa usa o medicamento.
Dapagliflozina e qualidade de vida
Além de prevenir eventos graves, estudos demonstraram que a dapagliflozina melhora a qualidade de vida dos pacientes:
- Redução dos sintomas de insuficiência cardíaca como falta de ar e inchaço
- Melhora da capacidade de realizar atividades diárias
- Redução de hospitalizações
- Melhora do bem-estar geral
Diretrizes médicas recomendam fortemente
As principais sociedades médicas do mundo, incluindo a Associação Americana de Diabetes, o Colégio Americano de Cardiologia e a Sociedade Europeia de Cardiologia, recomendam fortemente o uso de inibidores do SGLT2 como a dapagliflozina em suas diretrizes mais recentes.
Para pacientes com insuficiência cardíaca, os inibidores do SGLT2 são considerados terapia fundamental, junto com outros medicamentos essenciais como inibidores da ECA, betabloqueadores e antagonistas da aldosterona.
Para pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular ou renal, os inibidores do SGLT2 são recomendados independentemente do controle da glicose, devido aos seus benefícios cardiovasculares e renais.
Conclusão
A dapagliflozina representa um dos maiores avanços da medicina cardiovascular e renal das últimas décadas. Como parte da classe dos inibidores do SGLT2, ela tem evidências científicas robustas comprovando sua eficácia e segurança em múltiplas condições.
Ao reduzir hospitalizações por insuficiência cardíaca, proteger os rins, prevenir a progressão da doença renal crônica e melhorar o controle do diabetes, a dapagliflozina oferece benefícios que vão muito além de um único órgão ou sistema. Seus efeitos protetores funcionam independentemente da presença de diabetes, tornando-a uma terapia fundamental para milhões de pessoas.
Os estudos científicos envolvendo mais de 90.000 pacientes demonstraram reduções consistentes de 25% a 35% em hospitalizações por insuficiência cardíaca, 36% a 41% em desfechos renais graves, e benefícios significativos em mortalidade cardiovascular. Esses números representam vidas salvas e sofrimento evitado.
No entanto, é importante lembrar que a dapagliflozina funciona melhor quando combinada com um estilo de vida saudável, incluindo alimentação equilibrada, exercícios regulares, controle da pressão arterial e abandono do tabagismo. O uso deste medicamento deve sempre ser orientado e acompanhado por um médico, que poderá avaliar se ele é apropriado para cada caso individual e monitorar sua eficácia e segurança ao longo do tempo.
Se você tem diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, converse com seu médico sobre se a dapagliflozina pode ser uma opção adequada para você. O tratamento adequado dessas condições é um investimento fundamental na sua saúde e qualidade de vida a longo prazo.

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Escrito por: Ênio Panetti Usiglio CRM 52 56781-1, médico especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (RQE 24185), membro da Sociedade Brasileira de Hipertensão Arterial.



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