Tipos de obesidade e saúde: IMC, circunferência abdominal e metabolismo
- Equipe Ênio Panetti

- 19 de jan.
- 6 min de leitura

Quando alguém fala “obesidade”, muita gente imagina que existe um único tipo: “estar acima do peso”. Mas a realidade é bem diferente. Obesidade não é uma coisa só — e entender os tipos de obesidade ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos de saúde completamente diferentes, sintomas distintos e respostas diferentes a dieta, exercício e medicamentos.
Neste texto, vou explicar de forma fácil quais são os principais tipos e classificações de obesidade usados na medicina, o que cada um significa e como isso influencia o cuidado. A ideia aqui não é “rotular” ninguém, e sim entender o corpo com mais precisão, para buscar um tratamento mais inteligente e realista.
O que é obesidade, afinal?
A obesidade é uma doença crônica caracterizada por excesso de gordura corporal que aumenta o risco de problemas como diabetes tipo 2, hipertensão, colesterol alto, apneia do sono, esteatose hepática (gordura no fígado), infarto e AVC, entre outros.
Mas aqui vem um ponto essencial: nem sempre dá para medir obesidade apenas pelo peso. Por isso, os profissionais usam diferentes formas de classificar:
pelo IMC
pela distribuição da gordura (especialmente barriga)
pela presença ou não de alterações metabólicas
pela quantidade de músculo
pela causa provável (genética, hormonal, comportamental, medicamentos etc.)
pelo grau de impacto na saúde e na vida diária
Ou seja: existem vários tipos de obesidade — e isso é ótimo, porque permite um plano mais personalizado.
1) Obesidade pelo IMC (a classificação mais conhecida)
O IMC (Índice de Massa Corporal) é calculado por:
IMC = peso (kg) / altura² (m²)
Ele não é perfeito, mas é uma forma simples e útil de triagem. Em adultos, a classificação mais comum é:
Sobrepeso: IMC 25 a 29,9
Obesidade grau 1: IMC 30 a 34,9
Obesidade grau 2: IMC 35 a 39,9
Obesidade grau 3 (obesidade grave): IMC ≥ 40
Vantagem: rápido, prático e ajuda a estimar risco populacional.
Limitação: não diferencia gordura de músculo e não mostra onde a gordura está.
Por isso, hoje a medicina complementa o IMC com outras medidas, principalmente a gordura abdominal.
2) Obesidade central (abdominal) vs. obesidade periférica
Esse é um dos pontos mais importantes quando se fala em risco à saúde.
Obesidade central (barriga)
É quando a gordura se concentra no abdômen, especialmente a gordura visceral (por dentro, ao redor dos órgãos). Ela é a mais ligada a:
resistência à insulina
diabetes tipo 2
hipertensão
aumento de triglicerídeos
queda do HDL (“colesterol bom”)
inflamação crônica
maior risco cardiovascular
A medida prática é a circunferência abdominal. Valores elevados costumam indicar maior risco metabólico.
Obesidade periférica (quadril e pernas)
É quando a gordura se acumula mais em glúteos, quadris e coxas. Em geral, tem menor risco metabólico do que a obesidade abdominal. Não significa que não traga impacto na saúde, mas o padrão central é o que mais preocupa para coração e metabolismo.
Uma forma visual clássica é:
Formato “maçã” = mais barriga (maior risco)
Formato “pera” = mais quadril e coxa (menor risco metabólico)
3) Obesidade visceral vs. obesidade subcutânea
Aqui entramos no “tipo” de gordura:
Gordura subcutânea
É a gordura que fica logo abaixo da pele.
Ela influencia estética e medidas corporais, mas costuma ser menos perigosa do que a visceral.
Gordura visceral
É a gordura “interna”, dentro do abdômen, associada ao aumento de risco cardiometabólico.
É aquela que o corpo “enxerga” como mais inflamatória.
Muita gente tem peso “nem tão alto”, mas com bastante gordura visceral. É por isso que você pode conhecer alguém “aparentemente magro”, mas com gordura no fígado, pré-diabetes e pressão alta.
4) Obesidade metabolicamente saudável (MHO) vs. metabolicamente não saudável
Esse tema é super comum: “Doutor, eu estou bem acima do peso e meus exames são normais”.
De forma simplificada, existe um conceito chamado:
Obesidade metabolicamente saudável (MHO)
É quando a pessoa tem obesidade, mas sem alterações claras como diabetes, pressão alta e dislipidemia naquele momento.
Isso pode acontecer, principalmente em pessoas com:
mais gordura subcutânea do que visceral
boa aptidão cardiorrespiratória
menos inflamação metabólica
mais massa muscular
Mas atenção: “saudável” aqui não significa “sem risco”.
Muitas pessoas com MHO podem evoluir com o tempo para um perfil metabolicamente não saudável, especialmente se a gordura abdominal aumentar.
Obesidade metabolicamente não saudável
É a obesidade associada a alterações como:
glicose alta ou diabetes
pressão alta
triglicerídeos altos
HDL baixo
gordura no fígado
apneia do sono
síndrome metabólica
Esse grupo tem risco cardiovascular muito mais elevado e geralmente precisa de uma abordagem mais intensiva.
5) Obesidade sarcopênica (gordura alta + músculo baixo)
A obesidade sarcopênica é uma das mais ignoradas, mas muito importante, especialmente em:
pessoas acima dos 50–60 anos
pessoas que fizeram dietas repetidas com grande perda de peso
quem perdeu massa muscular por sedentarismo
quem usa certos medicamentos
pós-cirurgias e doenças crônicas
Aqui o corpo tem excesso de gordura, mas ao mesmo tempo tem pouca massa muscular, o que piora:
metabolismo
força e funcionalidade
risco de quedas
resistência à insulina
capacidade de manter o peso perdido
Esse tipo de obesidade pode enganar na balança: a pessoa até emagrece, mas fica “sem estrutura”, com cansaço, fraqueza e maior tendência ao reganho de peso.
Por isso, o tratamento não pode ser só “comer menos”: precisa incluir proteína adequada e treino de força.
6) Obesidade por causas hormonais (endócrinas)
Muita gente pergunta: “Obesidade pode ser hormonal?”
Pode, mas é importante ser realista: a maioria dos casos não é causada exclusivamente por hormônios. Mesmo assim, algumas condições podem contribuir para ganho de peso ou dificultar o emagrecimento, como:
hipotireoidismo (geralmente causa ganho modesto, porém mais por acúmulo de líquidos que gordura)
síndrome de Cushing (mais rara, mas pode causar obesidade central e fraqueza muscular). Causa: elevação do cortisol
SOP (síndrome dos ovários policísticos) (associada a resistência à insulina)
hipogonadismo (em alguns casos)Quando existe suspeita clínica, vale investigar com seu médico. O ponto principal é: tratar a causa ajuda, mas quase sempre ainda será preciso atuar em hábitos, sono, atividade física e, em alguns casos, medicação.
7) Obesidade induzida por medicamentos
Esse é um tipo de obesidade que muitas pessoas sofrem sem perceber que há um gatilho importante. Alguns medicamentos podem favorecer ganho de peso, como:
alguns antidepressivos
alguns antipsicóticos
corticoides (uso prolongado)
certas medicações para epilepsia
alguns tratamentos hormonais
Isso não significa que a pessoa deva parar por conta própria. Mas significa que o tratamento precisa ser estratégico: às vezes dá para ajustar doses, trocar por alternativas ou compensar com condutas específicas.
8) Obesidade genética e obesidade “ambiental” (multifatorial)
A obesidade tem um componente genético muito forte. Algumas pessoas têm maior predisposição para:
sentir mais fome
ter menos saciedade
ter maior recompensa cerebral por comida
ganhar peso com mais facilidade
defender o peso mais alto após emagrecer (o corpo luta para recuperar)
Mas genética não é destino. O que acontece é que vivemos num ambiente altamente “obesogênico”:
comida ultraprocessada disponível o tempo todo
sono ruim
estresse crônico
pouco movimento no dia a dia
telas e sedentarismo
rotina corrida
Quando genética + ambiente se somam, o risco aumenta bastante. E isso também explica por que “força de vontade” sozinha costuma falhar: o corpo realmente muda a fome e o gasto energético depois de emagrecer.
9) Obesidade por estágios e impacto na saúde (uma visão mais moderna)
Uma forma muito útil de classificar obesidade é pelo quanto ela já impacta a saúde, e não só pelo IMC.
Algumas pessoas têm IMC 30 e já têm apneia grave, hipertensão e diabetes. Outras têm IMC 35 e ainda estão sem grandes alterações laboratoriais. Então hoje faz sentido pensar em:
risco metabólico
comorbidades
limitações físicas
qualidade de vida
saúde mental
compulsão alimentar
dor crônica e inflamação articular
Em outras palavras: o “tipo” de obesidade também pode ser definido pelo impacto real na vida da pessoa.
Por que conhecer os tipos de obesidade muda tudo?
Porque emagrecimento não é só estética. O objetivo médico é reduzir risco e sofrimento, como:
baixar pressão e glicose
melhorar colesterol e fígado
controlar fome e compulsão
recuperar energia e disposição
melhorar sono e apneia
diminuir dor e inflamação
melhorar autoestima com saúde e verdade
E o melhor caminho depende do tipo predominante:
muita gordura visceral → foco forte em metabolismo e risco cardiometabólico
sarcopênica → foco em proteína e força
induzida por medicamentos → ajustes e estratégia
comportamental/emocional → terapia, sono e rotina
hormonal → investigar e tratar causa associada
grau 2/3 com comorbidades → considerar medicamentos e até cirurgia bariátrica, caso indicado
O que fazer se você desconfia que tem obesidade?
O primeiro passo é sair do ciclo de culpa e tentar fazer uma avaliação objetiva. Em uma consulta bem feita, é possível analisar:
IMC e circunferência abdominal
pressão arterial
exames metabólicos (glicose, HbA1c, lipídios)
fígado (TGO/TGP, ultrassom)
sono e apneia (questionários e exames)
composição corporal (quando possível)
comportamento alimentar e padrão de fome
histórico de tentativas e reganho de peso
A partir daí, o tratamento pode incluir:
mudanças realistas de alimentação (não “dieta de sofrimento”)
melhora do sono
exercício com estratégia (principalmente força)
manejo de estresse
terapia quando necessário
medicamentos quando bem indicados
e, em alguns casos, cirurgia bariátrica
Conclusão: obesidade tem “sobrenomes” — e isso é bom
Falar em “tipos de obesidade” não serve para complicar. Serve para respeitar a biologia e a individualidade. Quando você entende se a obesidade é mais visceral, mais sarcopênica, mais metabólica, mais hormonal ou influenciada por medicamentos, você para de entrar em planos genéricos que não funcionam.
E se tem uma mensagem que vale guardar é esta:
obesidade tem tratamento — e ele precisa ser compatível com a sua realidade, sua saúde e seu corpo.
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